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Adolescentes e apostas: como proteger os jovens das bets

Apostar é proibido para menores de 18 anos, mas pesquisas indicam que adolescentes brasileiros estão apostando online. Entenda por que o cérebro jovem é mais vulnerável, reconheça os sinais de alerta e veja como convers…

Adolescentes e apostas: como proteger os jovens das bets

No Brasil, apostar é proibido para menores de 18 anos — a Lei 14.790/2023 restringe as bets a adultos e exige verificação de identidade no cadastro. Na prática, porém, os dados indicam que adolescentes estão apostando: uma pesquisa Ipsos/Unico de 2025 apontou que 11% dos jovens de 10 a 17 anos usaram bets no ano. Este guia reúne o que pais, mães e educadores precisam saber para proteger os jovens — sem pânico e sem sermão. O Primeira Solução não tem qualquer vínculo com casas de apostas: este é um conteúdo educativo, parte do nosso especial sobre o que as apostas estão causando no Brasil.

Resumo rápido
  • Aposta é proibida para menores de 18 anos, mas pesquisa Ipsos/Unico (2025, autodeclarada) indica que 11% dos jovens de 10 a 17 anos apostaram online — 20% entre meninos de 16 e 17 anos.
  • O LENAD III (Unifesp, 2025) estimou que 10,5% dos adolescentes de 14 a 17 anos apostaram no último ano — e 55,2% dos adolescentes que apostam já estão na zona de risco.
  • Em adolescentes a escalada é rápida: estudo nacional encontrou média de menos de 4 meses entre o início do jogo regular e o primeiro problema.
  • Sinais de alerta: dinheiro sumindo, Pix para destinos desconhecidos, apps escondidos, ansiedade, queda no sono e no rendimento escolar.
  • Conversa sem julgamento + controles práticos (Pix supervisionado, controle parental, bloqueio de sites) protegem mais do que punição isolada.

Proibido por lei, acessível na prática

A proibição existe no papel — e vem sendo reforçada: a Portaria SPA/MF 1.143/2024 exige verificação de identidade com reconhecimento facial antes do cadastro nas plataformas autorizadas. Mesmo assim, os menores chegam lá: pela conta de um adulto, por sites ilegais ou por brechas de verificação.

Os números disponíveis são indícios, não estatísticas oficiais, mas convergem. A pesquisa Ipsos/Unico (2025, 1.200 jovens de 10 a 17 anos, autodeclarada) apontou que 11% dos menores apostaram online no ano, chegando a 20% entre meninos de 16 e 17 anos. Já o LENAD III, levantamento nacional da Unifesp com dados de 2023, estimou que 10,5% dos adolescentes de 14 a 17 anos apostaram no último ano — e que 55,2% dos adolescentes apostadores já apresentam algum grau de risco na escala PGSI.

O mais preocupante é a velocidade: em amostra nacionalmente representativa de 661 adolescentes brasileiros, pesquisadores encontraram, em média, menos de 4 meses entre o início do jogo regular e o primeiro problema com jogo — uma escalada muito mais rápida que em adultos (Spritzer et al., 2011). No mundo, a Comissão Lancet Public Health (2024) estima que 17,9% dos adolescentes participaram de alguma forma de aposta no último ano — e que 10,3% dos adolescentes apostaram online.

Publicidade, futebol e influenciadores

O adolescente brasileiro cresce cercado de estímulos: marcas de apostas no futebol, anúncios nas redes e influenciadores exibindo supostos ganhos. A regulação tenta conter isso: a Portaria SPA/MF 1.231/2024 proíbe publicidade dirigida a menores de 18 anos e veta celebridades e influenciadores que sugiram que apostar traz sucesso pessoal ou financeiro. Em novembro de 2024, liminar do ministro Luiz Fux (STF), referendada por unanimidade, suspendeu em todo o país qualquer publicidade de bets dirigida a crianças e adolescentes.

A CPI das Bets do Senado apurou um mecanismo especialmente enganoso: contas "demo" que simulam ganhos fáceis em jogos tipo "tigrinho" para atrair seguidores. O relatório final da CPI propunha o indiciamento de 16 pessoas, incluindo influenciadores digitais, mas foi rejeitado por 4 votos a 3 em junho de 2025 — encerrando a comissão sem indiciamentos. As investigações policiais continuam: em maio de 2026, a operação "Jogo Sujo", da Polícia Civil do Ceará, bloqueou cerca de R$ 85 milhões de uma organização suspeita de usar influenciadores para divulgar plataformas ilegais (investigação em andamento; vale a presunção de inocência). Explicamos essa mecânica em detalhes em por que você quase sempre perde no "jogo do tigrinho".

Veja como influenciadores atraem vítimas prometendo ganho fácil no 'Jogo do Tigrinho'

🎥 Veja como influenciadores atraem vítimas prometendo ganho fácil no "Jogo do Tigrinho" (Fantástico) — g1 (1 milhão de visualizações)

A Sociedade Brasileira de Pediatria, em Nota de Alerta de setembro de 2024, denunciou bets apresentadas como entretenimento, o uso de influenciadores mirins e adolescentes em publicidade e bônus de boas-vindas para iniciantes — e lembrou que expor crianças e adolescentes a ambientes de aposta pode violar o ECA, com sanções previstas no artigo 243.

Por que o cérebro adolescente é mais vulnerável

O cérebro adolescente ainda está em construção: as áreas que buscam recompensa e novidade amadurecem antes das que freiam impulsos e avaliam consequências. É por isso que produtos desenhados para estimular repetição — rodadas rápidas, luzes, sons, recompensas imprevisíveis — encontram no jovem um alvo especialmente sensível.

A neurociência mostra como esse design funciona: no estudo clássico de Clark e colegas (Neuron, 2009), os "quase-acertos" das máquinas caça-níqueis ativaram os mesmos circuitos cerebrais de recompensa acionados por vitórias reais em dinheiro — e aumentaram o desejo de continuar jogando, mesmo sem ganho algum. E os produtos mais viciantes são justamente os que mais circulam entre os jovens: segundo a Comissão Lancet, entre adolescentes que usam cassino e slots online, 26,4% apresentam transtorno do jogo — taxa maior que a dos adultos.

"Os algoritmos dos jogos on-line acompanham a rotina de cada usuário", relatou o empresário André Holanda Rodrigues Rolim, ex-viciado em apostas, em depoimento à CPI das Bets, segundo a Agência Senado.

O que as BETS fazem com o seu CÉREBRO

🎥 O que as BETS fazem com o seu CÉREBRO — Ciência Todo Dia (2,4 milhões de visualizações)

Sinais de que o adolescente pode estar apostando

  • Dinheiro sumindo: mesada que acaba rápido demais, pedidos frequentes de Pix, vendas de itens pessoais (fone, jogos, roupas).
  • Movimentações estranhas: transferências para CPFs ou empresas desconhecidas, uso escondido do cartão ou da conta dos pais.
  • Apps e abas escondidos: sites de aposta no histórico, apps disfarçados, celular virado para baixo, irritação quando alguém se aproxima da tela.
  • Mudanças emocionais: ansiedade, irritabilidade, insônia, euforia repentina seguida de desânimo.
  • Queda na escola e isolamento: notas caindo, abandono de esportes e amigos, madrugadas acordado.

Como conversar sem sermão

  1. Escolha o momento: conversa privada, sem plateia, sem celular confiscado na hora — confisco antes do diálogo vira guerra.
  2. Comece pela curiosidade: "vi que muita gente da sua idade aposta; você conhece alguém?" abre mais portas do que acusação direta.
  3. Mostre a matemática, não a moral: adolescente reage mal a "isso é errado", mas entende "o sistema é desenhado para você perder". A calculadora de custo das apostas torna isso concreto.
  4. Valide o sentimento: a promessa de dinheiro rápido é sedutora mesmo. Reconhecer isso tira o tom de sermão.
  5. Combine regras, não imponha só castigo: limites de uso e transparência financeira negociados têm mais adesão do que proibição unilateral.

Controles práticos para a família

MedidaComo aplicar
Pix supervisionadoConta de menor vinculada à do responsável, com limites baixos de transferência e notificação de cada transação no celular dos pais.
Controle parentalAtivar Family Link (Android) ou Tempo de Uso (iPhone) para aprovar instalação de apps e limitar horários de uso.
Bloqueio de sitesFiltros de conteúdo no roteador ou DNS familiar bloqueando categorias de apostas; revisar o histórico do navegador com o jovem, não escondido dele.
Cartões e senhasNunca compartilhar senha bancária ou deixar cartão salvo em dispositivos do adolescente — muitos menores acessam as plataformas usando contas de adultos.
Autoexclusão (18+)Para jovens que acabaram de fazer 18 anos e já perderam o controle, a plataforma nacional de autoexclusão (gov.br) bloqueia o CPF em todas as bets autorizadas em até 72 horas.

Games e loot boxes: a porta de entrada

A preocupação não se limita às bets. A Nota de Alerta da SBP cita, além do transtorno de jogo de apostas (CID-11, código 6C50), o transtorno de jogos digitais (6C51) — e mecânicas de azar dentro de videogames, como caixas de recompensa compradas com dinheiro real, normalizam cedo a lógica de "pagar para tentar a sorte". Vale observar quanto o jovem gasta em compras dentro de jogos: para muitos, esse é o primeiro contato com apostar.

Escola, prevenção e o que o mundo já faz

A escola é aliada: educação financeira e midiática — entender probabilidade, reconhecer publicidade disfarçada, questionar promessas de dinheiro fácil — funciona como vacina. A SBP recomenda que até pediatras orientem as famílias sobre riscos do uso precoce e excessivo de jogos online sem regras de segurança.

Outros países foram além da idade mínima de 18: a Bélgica elevou para 21 anos a idade mínima para qualquer forma de jogo (2024); os Países Baixos impõem limite de depósito mais baixo (€ 300/mês) para jovens de 18 a 25 anos; e o Reino Unido fixou teto de £ 2 por giro em slots online para quem tem 18 a 24 anos, citando pesquisas de que menores de 25 têm dos maiores escores de jogo problemático. No registro britânico de autoexclusão GamStop, os novos cadastros de jovens de 16 a 24 anos cresceram 40% em um ano. Comparamos essas políticas em o que os governos do mundo estão fazendo contra os danos das apostas.

🤝 Onde buscar ajuda gratuita
  • CAPS e CAPSi (SUS) — atendimento gratuito em saúde mental, incluindo infantojuvenil; procure a unidade mais próxima na prefeitura ou em gov.br/saude. Veja nosso guia sobre tratamento gratuito pelo SUS.
  • CVV — 188 — apoio emocional gratuito, 24h, por telefone, chat e e-mail (cvv.org.br), para o jovem e para a família.
  • Jog-Anon — grupos de apoio para familiares de jogadores compulsivos: jog-anon.com.br, WhatsApp (11) 98525-7566.
  • Jogadores Anônimos — reuniões presenciais e online, gratuitas: jogadoresanonimos.com.br, WhatsApp nacional (21) 99472-1933.
  • Autoexclusão nacional (18+) — autoexclusaoapostas.fazenda.gov.br, com conta gov.br prata ou ouro; bloqueia todas as bets autorizadas.
  • PRO-AMJO (IPq-HC-USP, SP, 18+) — tratamento gratuito especializado: (11) 2661-7805; a demanda é alta, ligue antes para confirmar triagens.

Se o problema já se instalou em alguém da casa, leia também como ajudar um familiar viciado em apostas.

Perguntas frequentes

Apostar é proibido para menores de 18 anos no Brasil?

Sim. A Lei 14.790/2023 restringe apostas a maiores de 18 anos, e as plataformas autorizadas devem verificar a identidade com reconhecimento facial. A SBP alerta que expor menores a ambientes de aposta pode ainda violar o ECA (art. 243).

Como descubro se meu filho está apostando?

Observe o conjunto: dinheiro sumindo, Pix para destinos desconhecidos, apps ou abas escondidos, ansiedade, insônia e queda no rendimento escolar. Um sinal isolado não prova nada — a conversa aberta vale mais que a vigilância secreta.

O "jogo do tigrinho" é ilegal?

Não necessariamente: o Fortune Tiger existe licitamente em plataformas autorizadas (.bet.br) — para adultos. O problema documentado pela CPI das Bets é a promoção fraudulenta, com contas "demo" que simulam ganhos fáceis, e as plataformas ilegais que não seguem regra alguma.

Bloquear o celular do adolescente resolve o problema?

Sozinho, não. Bloqueios técnicos criam atrito útil, mas o jovem encontra outros aparelhos e sites ilegais. O que protege de verdade é a combinação: diálogo sem sermão, supervisão financeira, controle parental e, se houver sofrimento, ajuda profissional.

Adolescente pode desenvolver vício em apostas mais rápido que adulto?

Os dados sugerem que sim: em estudo nacional com adolescentes brasileiros, passaram-se em média menos de 4 meses entre o jogo regular e o primeiro problema, e o LENAD III estimou que 55,2% dos adolescentes que apostam já estão na zona de risco.

Fontes e referências

  1. Ipsos/Unico (via BNLData) — 11% dos jovens de 10 a 17 anos usaram bets em 2025. link
  2. LENAD III / Unifesp — Caderno Temático: Jogos de Aposta na População Brasileira (2025). link
  3. Spritzer et al. — Prevalence and correlates of gambling problems among Brazilian adolescents (J. Gambling Studies, 2011). link
  4. The Lancet Public Health Commission on gambling (2024). link
  5. Sociedade Brasileira de Pediatria — Nota de Alerta: riscos das apostas online (2024). link
  6. Portaria SPA/MF nº 1.231/2024 — regras de publicidade de apostas. link
  7. STF — liminar veda publicidade de bets para crianças e adolescentes (ADIs 7721/7723). link
  8. Senado Federal — CPI das Bets rejeita relatório final (12/06/2025). link
  9. Rádio Senado — CPI das Bets ouve ex-viciado em apostas online (depoimento de André Rolim, 25/03/2025). link
  10. GCMais — Operação "Jogo Sujo" bloqueia R$ 85 milhões e mira influenciadores no Ceará (05/2026). link
  11. Clark et al. — Gambling Near-Misses Enhance Motivation to Gamble (Neuron, 2009). link
  12. Convergência Digital — Anatel bloqueou quase 50 mil sites de apostas ilegais (2026). link
  13. Ministério da Fazenda/SPA — Plataforma Centralizada de Autoexclusão. link
  14. iGaming Business — Bélgica proíbe jogo para menores de 21 anos (2024). link
  15. Governo dos Países Baixos — limites de depósito no jogo online (2024). link
  16. GOV.UK — limites de aposta em slots online por faixa etária (2024). link
  17. GamStop — alta de 40% nos registros de jovens de 16 a 24 anos (2025). link
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